Casildo Maldaner: o migrante que foi governador

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A vida de Casildo Maldaner se confunde com a história do Oeste de Santa Catarina e repete uma constante de décadas: famílias gaúchas, a maioria descendentes de italianos e alemães, varavam o rio Uruguai em busca de terras baratas e “desabitadas”, que na época eram escassas e caras no Rio Grande do Sul.

Os preços eram baixos porque o domínio da área que compreende o Oeste barriga-verde foi contestado pela Argentina. Somente em 1895, após o arbítrio de Grover Cleveland, presidente dos EUA, a região se tornou oficialmente parte do Brasil.

Mas, uma vez solucionado o impasse com os argentinos, a soberania sobre a rica área de terras florestadas e os Campos de Palmas passou a ser contestada pelos gaúchos e paranaenses.

Superadas as divergências com o Rio Grande do Sul, os catarinenses defenderam o direito ao território contra a ocupação paranaense na Guerra do Contestado, seguida do acordo de limites com o Paraná, celebrado em 1916.

A partir daí, naturais da terra e migrantes puderam registrar propriedades em cartórios, dando início à compra e venda legal de terras e ao povoamento daquela vasta região.

Um dos muitos jovens casais que toparam os riscos de migrar para uma terra quase inexplorada foi Andreas e Érica Maldaner, pais de Casildo. Cruzaram o rio em 1944.

Casildo Maldaner, durante entrevista, em 2013

Casildo Maldaner, durante entrevista, em 2013

“Nasci em Carazinho, no distrito de Tapera, em 2 de abril de 1942. Fui o primeiro de nove irmãos. Meu pai era o mais novo da família, ele e meus tios vieram atrás de terras. Vim em cima da mudança, com cachorro, galinha, era um caminhãozinho. Na época, Chapecó era um lugar pequenino, estava começando com terras mais baratas”, lembrou o ex-governador, que conversou com a equipe da Agência AL em seu apartamento da Beira-Mar Norte, em Florianópolis, em setembro de 2013.

“O início da vida foi papai e mamãe tirando leite, eu indo na escola quando dava, porque ficava a seis quilômetros. Então me ensinaram a andar a cavalo, com sete, oito anos levava leite para a cidade. Levantava às seis, ajudava a tirar e saía troteando, depois ia para aula e ficava até meio-dia. Daí levava comida para o pai na roça.”

Mas a permanência de Andreas em Chapecó foi fugaz, logo seguiu para Modelo, na época um distrito de São Carlos.

“Um irmão da minha mãe começou uma pequena serraria, havia muita madeira, pinheiro, matas não habitadas, lugar de aventureiros. Não tinha aula, cresci derrubando madeira e na roça. Com treze anos papai decidiu me levar para o Seminário, em Maravilha.”

“Não era fácil, só aceitavam quem queria estudar para padre. No dia marcado papai me levou e me deixou. Subi com as trouxas até o quarto andar, de calças curtas e chapéu de palha. O padre perguntou ‘quer estudar para padre?’ Papai mandou dizer que sim, disse sim. Acabei ficando, sentiram a pureza. Fiquei cinco anos.”

“Saí do Seminário e fui servir em Santo Ângelo (RS). Era a época da Legalidade, foi o momento da renúncia de Jânio Quadros e não queriam que o Jango (João Goulart) assumisse. O Leonel Brizola criou a Rede da Legalidade e o 3º Exército queria enfrentar o resto do Brasil. Chegamos a embarcar no trem para defender o direito de o vice assumir, ia lutar, entregar o sangue em prol da Constituição.”

Como não houve confronto, os soldados voltaram para os quarteis e, na tentativa de apaziguar o país, implantou-se o parlamentarismo, rechaçado no plebiscito de 1963.

“Enquanto isso, voltei para casa, coincidentemente na época da emancipação de Modelo. Aí começou minha vida política, tinha 20 anos. Ajudava o papai em casa, no comércio. A gente tinha de fazer de tudo, na bodega tinha de ser polivalente. Era um armazém de madeira, vendíamos secos e molhados, tecidos, brim coringa e comprávamos produtos coloniais.”

A vida na linha Salete
“Eu vendia chita, cambraia, tafetá. Ainda lembro, ‘não desbota, é infestado, um metro e meio dá um bom vestido’. Eram as mulheres que vinham comprar. Um ano a safra não deu boa, só dava para comprar o mais baratinho, que pode encolher, desbotar. Não dava outra, na primeira lavada no tanque, ‘olha como ficou Casildo! Ficou curto.’ Contei essa história no Jô Soares. As mulheres, constrangidas, tinham de usar, virou a moda da minissaia!”

Casildo Maldaner, durante a juventude, em Modelo, no Oeste de SC

Casildo Maldaner, durante a juventude, em Modelo, no Oeste de SC

“A gente se envolvia com a comunidade, ia dançar a primeira música para inaugurar as casas. Faziam leilão de uma galinha assada nessas ocasiões. Também ia para os bailes, a gente organizava. Naquele tempo os caboclos usavam muitas armas, então antes de começar o baile alguém falava ‘olha, quem estiver armado, deixe no balcão’. Para evitar bagunça, traziam as armas.”

“Como não havia maternidade na região, vinha o pai de madrugada bater lá em casa. O Casildo pegava o reboque ou a rural, pegava a parteira e levava ela na casa. Para não fazer duas viagens, ficava tomando chimarrão até que escutava o choro. Daí o pai me convidava para ser padrinho, para não cobrar a corrida. Aos 21, 22 já tinha trinta e poucos compadres”.

O vereador
“Queriam que papai fosse candidato. Ele respondeu ‘para mim fica meio complicado, olha, coloco meu filho’. Foi o momento em que comecei, campanha a cavalo, na roça, conversa no toco de pinheiro. Papai me levava no paiol de milho e ensaiava, ‘tem que dizer isso, aquilo’. Hoje o pessoal diz que animo as massas!”

“Eram seis quilômetros de casa até a Câmara, ia a cavalo para as sessões. O vereador não era remunerado, a luta era assim, tinha de fazer tudo, até roçar as beiras de estradas, era o sistema antigo. A comunidade não tinha telefone, foi uma luta levar um ramal de telefone a manivela. Um dos grandes acontecimentos foi conseguir energia elétrica. Eu bradava, cobrava uma linha, uma iluminação.”

Casildo, então vereador em Modelo, discursa para a população

Casildo, então vereador em Modelo, discursa para a população

“O vereador é um deputado municipal, tem de ser padre, pastor, enfermeiro, viver os dramas, é um confidente. É uma grandeza ser vereador, ainda voto na linha Salete, foram quatro anos de mandato pela União Democrática Nacional (UDN). Aí parei um pouco, passei para um tio meu. Nesse período fiquei como bodegueiro.”

“Voltei em 1974, como candidato a deputado estadual pelo MDB. Queriam um deputado daquela região, alguém que se aventurasse. Lazinho Vieira, Dércio Knop e o Dejandir Dalpasquale vieram com a conversa ‘você podia ser candidato, ajudar o partido, o MDB’. Aceitei.”

A campanha para deputado
“Só tinha uma rádio na região, em Palmitos. Televisão, nem falar. Tinha a tevê Coligadas, em Blumenau. Me propuseram participar de um programa em Blumenau, ao vivo.  O Dércio Knop me acordou as três da manhã. Estava em um fusquinha com alguém de Serra Alta. Passamos por Pinhalzinho e a balsa do rio Chapecó, na época o Oeste era bem abandonado. Chegamos em Blumenau na boca-da-noite, um dia de viagem, chão batido até Rio do Sul”.

“Nelson Serpa (na época já ex-prefeito de Campos Novos) estava com o Felix Theiss, que era o organizador do programa dos candidatos. Estavam na frente da prefeitura, aguardando. O Nelson me colocou no carro e disse ‘o Casildo vai dar no couro’. Quando cheguei estava falando o Albino Zeni, da Arena. Como o outro companheiro do MDB não foi, fiquei com o problema todo. Nunca tinha visto um refletor”.

“Na época quase não tinha televisão no Oeste. Foi a rádio que deu que o Casildo ia aparecer na televisão. Nossos adversários correram dizer ‘esse piá da linha Salete não vai ter coragem de ir’. Só tinha dois, três aparelhos, mas em cada um tinha um grupo de 50, 60 pessoas. Falei que o Oeste estava abandonado, que nunca se via máquinas, não tinha ponte, que o pessoal não tinha ligação, que a produção não andava. ‘Se aparecer uma máquina, as crianças fogem! Quero ser uma voz para representar a região em Florianópolis’”.

“Voltei no dia seguinte, porque à noite tinha comício marcado em Pinhalzinho.  Como era jovem, tinha uma cabeleira grande, me chamavam de pelego. No comício discursei: ‘me chamam de pelego, mas essa lã que aqui sustento serve para acalentar os ideais cívicos da nossa terra’. A gente aprende, hoje sou temperado, fui sendo temperado na bigorna do dia-a-dia”.

Casildo em Florianópolis

O então deputado estadual Casildo Maldaner, no plenário da Alesc

O então deputado estadual Casildo Maldaner, no plenário da Alesc

“Assumi na Assembleia com 32 anos. Vim com filho no colo, não tínhamos televisão, geladeira. Fomos morar na Felipe Schmidt, no edifício Santa Catarina. A primeira televisão comprei nas Lojas Pereira Oliveira (LPO) e o deputado Valdir Buzatto foi o avalista.”

“Para mim tudo era novidade. Comecei a estudar, não tinha concluído o segundo grau. Saía da Assembleia e ia para CPU Barriga-Verde, no centro, para terminar o segundo grau. As provas fiz no Instituto Estadual de Educação (IEE), fui eliminando como dava. Apanhei em Física e Matemática.”

“Era o governo do Antônio Carlos Konder Reis e veio a peste africana. O secretário da Agricultura era o Victor Fontana. Por ordem de Brasília, tinham de exterminar as criadeiras. Matavam, atiravam, pelotões de soldados para atirar. A gente via as criadeiras, deitavam dando de mamá. Muito triste, não indenizaram e a crise aumentou em função disso.”

“Em 1982 aconteceram as primeiras eleições diretas para governador. Jaison Barreto pelo MDB e o adversário, Esperidião Amin, com o Fontana de vice. Bati muito nisso, o Victor era secretário, eu dizia ‘olha quem quiser que volte a africana que vote no Amin e no Fontana’.  Perdemos por 12 mil votos. Depois comecei a conhecer a história, o Henrique Córdova saiu com uma caneta desse tamanho ajudando, sem falar em Imaruí e Laguna, com os Bitencourt usando todos os meios possíveis.”

Diretas Já

O deputado federal Casildo, durante a votação do Colégio Eleitoral, em 1985

O deputado federal Casildo, durante a votação do Colégio Eleitoral, em 1985

“As Diretas Já foi uma caminhada bonita, senti o Brasil de perto. Praça da Sé, Rio, milhares e milhares de pessoas. Na emenda Dante Oliveira, votei pelas diretas, foi um momento de emoção. Tinha começado o curso de Direito na UFSC, depois transferi para a Universidade de Brasília (UnB). Para mim foi um momento muito interessante.

Vice-governador
“Por incrível que pareça foi o prefeito de São Bento do Sul, Genésio Tureck, quem lançou a ideia, lá no Norte do estado. Tínhamos sido colegas na Assembleia, me conhecia. ‘Um nome do Oeste, um jovem, revolucionário, com cabeleira, metido, acho que vale a pena trazer o Oeste’.  Nessa época se falava muito no estado de Iguaçu e eu unia experiência e juventude”.

“Foi uma campanha bonita, Pedro metódico, eu, expansivo. Em Curitibanos falei ‘vamos sofrer e vamos ganhar, mas temos de mudar, é um balaio de caranguejos, todos incrustados. Pedro, pelo amor de Deus, no primeiro dia, ao invés de tirar devagarinho, tira num canetaço, tira de balaio, tira tudo’. Daí o povo se animava. O resultado do Jaison em 1982 ficou na poupança, rendeu juros e correção monetária!”

O governo Pedro Ivo
“Foi um governo sério, o Pedro Ivo muito duro, corajoso, foi um governo de saneamento. O Besc estava sob intervenção, o BRDE também, não podia usar os bancos para captar recursos. Um começo muito duro, muito difícil, não havia lei de responsabilidade fiscal. Mas a doença começou a florescer, ele tinha nos dedos, foi se tratar nos EUA, tinha muita vontade de viver. Enfrentou greve, mas graças a Deus fomos levando, eu tinha de ser muito fiel a ele. O Pedro fez o saneamento financeiro, recolocou as coisas nos seus devidos lugares”.

Mudança do vice para o Palácio

Casildo Maldaner, então governador, durante solenidade

Casildo Maldaner, então governador, durante solenidade

O estilo de Pedro Ivo, que era coronel da reserva do Exército, obrigou os emedebistas a mudar o local de despacho do vice-governador, que ficava no edifício das Diretorias, na rua Tenente Silveira, cerca de um quilômetro da antiga sede do governo, o Palácio Santa Catarina, na praça Tancredo Neves.

“Como o Pedro Ivo era muito duro, para acalmar um pouco, os companheiros me levaram para lá. Eu e o Pedro nos entendíamos na essência, mas trilhamos caminhos diferentes.”

Greves dos professores
“Cercaram o palácio, a Ideli Salvatti era a líder dos professores, ela e o Sérgio Grando. Eu sempre dizia, melhor duas horas de diálogo do que cinco minutos de tiroteio. O Pedro tinha de sair do palácio, mas estava cercado. O coronel Braga alertou: ‘governador, o senhor não vai poder sair por ali’. Era agosto e Pedro tinha de ir a Lages. ‘Sai pela porta dos fundos’. Pedro não aceitou: ‘eles vão descobrir que não estou, vão dizer que fugi, vai ficar ruim para mim’”.

“Falei para o governador ‘você não nasceu em noite de trovoada para andar assustado! E com licença, vou por onde entrei’. Quiseram me segurar, o Sadi Lima, Altair de Marco e o Neri Clito Vieira, mas fui saindo, o direito de ir e vir. Diziam ‘fica aqui, não vai, vai fechar o pau’. Enquanto isso, peguei o microfone, constituí uma comissão, mas veio um querendo bater e no bate não bate, fomos indo até perto do Tribunal de Justiça, depois até à Prainha. Foram deixando, uma hora e pouco de rolo, mas não houve um tapa, fiquei aliviado. Ia ficar na história ter mandado bater ou fugir pelos fundos. O Mário Covas passou por situação semelhante em São Paulo.”

Morte de Pedro Ivo
“O Pedro dizia ‘Maldaner, te prepara’. Eu era uma espécie de confidente. Fiquei praticamente um ano como governador. Quando passei o governo não tinha reeleição, fiquei 48 meses fora, andando para lá e para cá. Depois saí para o Senado em 1995 e o Paulo Afonso foi para o governo. Fiquei até 2003 no Senado”.

O PMDB

Casildo Maldaner, durante homenagem pelos 50 anos do PMDB, em 2016

Casildo Maldaner, durante homenagem pelos 50 anos do PMDB, em 2016

“Presidi o partido por nove anos. Depois que perdemos a eleição de 1998, a luta foi pela unidade. Em 2001 o Luiz Henrique se lançou, fizemos o lançamento dele na Jornada da Unidade. Ulysses Guimarães dizia que nada melhor que um dia depois do outro. A luta continua, a derrota e o fracasso servem para acalentar os ideais, você tem de ter força para voltar a caminhar.”

“O homem público está em uma vitrine permanente, eu gostava de andar e como a esperança é a última que morre, voltamos ao governo em 2002. O retorno mostrou que vale a pena lutar. O Luiz Henrique implantou um novo sistema, a descentralização, mas nada é estanque, tudo evolui, tudo se transforma, se aperfeiçoa.”

Casildo banqueiro
“Fui diretor do Banco Regional para o Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), me reunia com setores da sociedade, empresários de todos os partidos, discutia com eles, representava um banco de desenvolvimento. Foquei muito no reflorestamento das terras dobradas, para agregar valor. A cooperativa ou a Secretaria Municipal de Agricultura colocava a técnica. Eu até brincava, faz reflorestamento, duas, três carreiras de árvores melíferas, atrai as abelhas, colhe mel, além de embelezar a propriedade.”

Suplente de Raimundo Colombo
“Em 2006 tinha reeleição e o Luiz Henrique era candidato. Colombo também era candidato a governador. O LHS defendeu que tínhamos que dar a vaga no Senado para ele, para fechar a coligação, mas era do PFL, não era fácil. O Luiz Henrique, muito persistente nisso, ficou rodeando o Colombo em uma festa do Pinhão”.

Luiz Henrique da Silveira e Casildo Maldaner, então senadores, em 2013

Luiz Henrique da Silveira e Casildo Maldaner, então senadores, em 2013

“Chegou um momento perto das convenções que o Colombo disse ‘aceito, mas com uma condição, o Maldaner de primeiro suplente’. Ele me rodeava, eu dizia ‘não vai pegar, fazer papel de algodão, vamos botar uma mulher’. O LHS sugeriu botar Ivone, eu concordei, cheguei a oferecer a mulher, mas não teve jeito, a turma de Colombo fincou pé. E o Luiz Henrique ‘tem de ser você, se você aceitar, a coligação sai’.”

“Lembro que em Curitibanos o Guerino Fontana me disse: ‘Maldaner, não vai dar, não dá’. Chegaram a chorar, mas decidiram garantir a reeleição.  Eu disse ‘vamos fazer o seguinte, vota no suplente, nele não’, com isso fui convencendo. Eu contava a história do Colombo que descobriu a América e que agora tinha outro Colombo para descobrir o que é melhor para Santa Catarina. Resultado? Em Dionísio Cerqueira vi os alunos conjugando o verbo colombar.”

“Não estava na pauta assumir o mandato no Senado, mas as coisas acontecem meio ao acaso. Colombo concorreu ao governo, LHS foi para o Senado com Paulo Bauer e eu assumi o mandato de senador com a vitória do Colombo para governador.”

Casildário
“O Casildário começou com o Dorvalino Furtado, irmão do Juarez, um escritor iluminado, ele andou vasculhando coisas antigas, frases aqui, acolá, as pessoas gostaram.”

Casildo discursa da tribuna do Senado Federal, em 2012

Casildo discursa da tribuna do Senado Federal, em 2012

“Gosto de contar uma história que aconteceu no primeiro mandato de senador. Foi aprovada a última lei de trânsito, então montei um livro e mandei para todo mundo, juízes, advogados, policiais. Lá em Modelo, meu irmão era prefeito, muito mão-de-vaca, mas com a nova legislação podia colocar um semáforo e cobrar multa, uma parte ia para o Detran e a outra ficava com o município. Ele foi nessa, botou um sinaleiro e um soldado andava com a lei para cima e para baixo.”

“Certo dia um compadre veio para a cidade de égua ferrada, tomou banho, colocou bombacha, dente de ouro e entrou em Modelo. Depois de passar pela terceira bodega, o guarda atacou ele, ‘não pode passar’. O compadre viu que o policial pegou o bloquinho. Logo começou a juntar gente e a égua ficou nervosa. Foi então que o compadre levantou o rabo da água e pediu para o guarda que anotasse a chapa.”

A esposa e o palácio
“Ivone fazia contabilidade em Maravilha, fazia teatro e em uma apresentação em Modelo fui assistir. O jeitinho, hum, simpatizei. Aí foi indo, ela estudante, telefonista na linha Salete. Casamos na linha Salete e lá nasceu nossa primeira filha.”

“A lua de mel foi no Rio Grande do Sul e em Florianópolis, um dia no hotel Bruggemann e um dia no Oscar Hotel. Em um desses dias saímos de manhã com uma máquina fotográfica emprestada de um colega do Exército. Fomos na Lagoa da Conceição, passamos na Agronômica e paramos para dar uma olhada. Casa bonita, tinha uma corrente, ‘dá para dar uma entradinha?’ O guarda respondeu ‘aqui não entra, é a residência do governador’. Lidamos, lidamos, mas não deixaram entrar.”

Os filhos
“A Josaine é médica veterinária e tem um sítio na praia da Pinheira. Ela tinha uma égua de saltar, montei, mas não olhei como estavam os aperos. Ela veio atrás, eu larguei uma corrida, quando vou segurar, quase me arrebento. E ela, ao invés de atender o pai, atendeu o cavalo. ‘Jurei atender bem os bichinhos’, me disse”.

“O Jandrey está na Alemanha, casou lá. A Janiara entrou para a magistratura. Um dia um dos meus compadres do Mato Grosso ficou sabendo da Janiara e ligou aqui em casa. ‘Olha, o teu afilhado, em Cajarana, não levou desaforo para casa, acabou com um baile e o delegado prendeu ele. Fui conversar com o delegado, mas só com ordem judicial para soltar. Soube que uma filha sua é juíza, pede para ela fazer um boletim de soltura e manda pelo ônibus’”.

O futuro, visto com os olhos de 2013
“Continuo ativo, sou aquele que luta, não sei ser diferente, extrovertido. O Pedro Ivo dizia ‘tem de ser mais sério’. Fico feliz quando vejo as pessoas bem e se puder fazer o bem, fico feliz”.

“Planos políticos? Agora quero ser conselheiro, continuar ajudando, cruzar os brações não dá, tem de ter uma agenda de luta. Pode se aposentar, mas não parar, tenho de ajudar os amigos, a gente se alegra junto. Outro cargo não está no script, o partido tem bons nomes e é preciso fomentar a entrada de outros nomes, jovens. Não está na minha cabeça continuar na linha de frente, mas não devo me afastar, o que eu puder fazer pela comunidade, farei”.

“O pessoal diz que sou meio extrovertido, no sentido pejorativo, mas em vez de xingar, comecei a usar parábolas. Me chamavam de pelego, eu transformava numa lã. Respondia dessa forma, tinha de enfrentar. Eu bradava, eles não gostavam, eu não ofendia, não destratava, assim criava um clima diferente. Minha gente, vamos dialogar”.

“Quero deixar um bom exemplo, ajudar a conciliar, trazer soluções enquanto tiver forças”.

A partida
Casildo Maldaner morreu dia 17 de maio de 2021, aos 79 anos, vítima de câncer de pele, doença que mata centenas de catarinenses todos os anos, principalmente no Oeste, local em que os migrantes e seus descendentes, com suas peles claras, ainda trabalham de sol a sol, muitas vezes sem a necessária proteção dos raios solares.

Vítor Santos
Agência AL
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