Rei do Tour: há 30 anos, Mauro Ribeiro levava 1ª e única vitória brasileira na Volta da França

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Mauro Ribeiro na vitória em 1991 - Arquivo pessoal
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O cálculo, rápido, resulta em um número atrante. Em 18 anos de carreira como profissional, entre o início da década de 1980 e o final dos anos 1990, o esforço diário em treinos e competições gerou um total percorrido de 360 mil quilômetros. A aferição é conservadora, mas já seria o suficiente, por exemplo, para dar nove voltas ao redor do planeta Terra.

Desta quantidade absurda de caminhos avançados, ele o guarda na mente, com uma clareza espantosa, 161 quilômetros deles.

– Se eu fechar os olhos hoje, ainda revejo tudo com uma nitidez impressionante – observou o curitibano.

No exercício de memória, ele recorda que à altura de 500 metros para o desfecho estava desgarrado dos perseguidores, tinha os olhos injetados e o batimento cardíaco acelerado. Estava rodeado de milhares de pessoas, mas não notava nenhuma. Era alvo de 15 concorrentes ávidos para alcançá-lo, mas os ignorava. Simplesmente porque precisava, a qualquer custo, cruzar a linha de chegada após mais de três horas e quarenta minutos de um desempenho sobre-humano.

– Eu estava no limite, a quase 63km/h – lembrou-se, com a consciência de que a velocidade seria o bastante para infringir limites de trânsito em várias cidades.

Quando enfim cruzou a marca que encerrava a etapa, a cronometragem oficial marcava 3h40min51s e uma aceleração final de 43,7km/h. À comemoração rápida com os braços erguidos seguiu-se uma sucessão de fatos dos quais ele não consegue enfileirar, um borrão de atividades, cumprimentos e solenidades que fez tudo parecer efêmero.

No momento em que finalmente pôde parar e organizar a razão, notou que tinham se passado quase cinco horas. Comeu sem apreciar sabor, banhou-se em piloto automático e se deitou, porque no dia seguinte teria de continuar.

Mauro com a bicicleta que venceu a etapa do Tour de 1991 – Arquivo pessoal

Foi apenas no dia seguinte que o paranaense teve uma percepção mais acurada do tamanho de sua façanha. Estava na primeira página de jornais de 172 países, descobriu que uma audiência três vezes maior do que a habitual havia testemunhado a prova e ouviu de locais que ele “já não era brasileiro, mas um francês adotado” – o que voltaria a escutar no futuro.

Também, pudera: Mauro Ribeiro tinha vencido, na véspera, a nona etapa do Tour de France de 1991 (entre Alençon e Rennes). Exatamente no dia 14 de julho, data da Queda da Bastilha, o maior feriado nacional da França. O primeiro brasileiro a vencer um estágio da prova ciclística mais tradicional do mundo. Até hoje, o único.

– É uma vitória que sempre está viva no espírito. Eu levo sempre essa sensação de que essa vitória está presente. Na época, me pareceu apenas um trabalho cumprido. Mas hoje tenho consciência de que o que fiz lá me levou a outra dimensão – afirmou o ex-ciclista, hoje com 56 anos.

Mauro representava a equipe R.M.O. na competição. Embora já fosse conhecido no circuito – havia iniciado a carreira profissional em 1980 -, o brasileiro tinha um quê de desbravador no ciclismo europeu. Diferentemente de outros países sul-americanos que têm tradição na modalidade, como a Colômbia, não havia muitos pares do Brasil no chamado pro tour.

– Eu apareci individualmente, como um cigano desbravando fronteiras – resumiu.

Mauro no pódio da etapa em 1991 – Arquivo pessoal

O curitibano obteve seu primeiro resultado internacional de relevo em 1983, quando foi bronze por equipes nos Jogos Pan-Americanos de Caracas. Em 1990, venceu uma etapa da clássica Paris-Nice. Antes de se aposentar, foi novamente medalhista de bronze pan-americano, dessa vez em Mar del Plata 1995, e participou dos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996.

Por mais que ostente uma diversidade interessante de conquistas, invariavelmente o assunto torna ao triunfo no Tour de France. E não apenas no Brasil.

Em 2013, jornalistas do diário esportivo francês “L’Équipe” passaram uma semana com Mauro em Curitiba para revisitar o feito de 1991 e contar como vivia o brasileiro. A reportagem fazia parte de uma série para comemorar os 100 anos de edições do Tour de France.

Os europeus se surpreenderam ao saber que ele treinava na Serra da Graciosa, uma região montanhosa que muito se assemelha às condições do Velho Continente – e guarda pouca relação com o estereótipo de Brasil quente, úmido e ensolarado nutrido por estrangeiros. Após redigirem o artigo, deram o título “Ribeiro, le belge du Brésil” (Ribeiro, o belga do Brasil).

Reportagem do “L’Équipe” sobre Mauro em 2013 – Reprodução

– Belga porque, na imaginação geral, o Brasil é Bahia, Rio de janeiro, praias, muito mais o lado exótico. E estar numa região montanhosa os impressionou, acharam que é algo típico da Bélgica. Eles foram em junho, quando a temperatura estava baixa. Falavam “isso aqui parece a Bélgica, com tudo nublado”. E aí me chamaram de belga – brincou.

Naquela edição do Tour em 1991, Mauro ainda terminou na terceira posição em outra etapa, a 15ª, entre Albi e Alès. Na classificação geral final, acabou em 47º. O campeão daquele ano foi o espanhol Miguel Induraín, que venceria a volta francesa outras quatro vezes.

– Eu terminei entre os 50 melhores do Tour. As pessoas acham que só ganhar etapa é o que vale, mas ter terminado entre os 50 é até hoje a melhor marca de um brasileiro. É uma satisfação, sou um cara privilegiado esportivamente. Tive mais espinhos no pé do que tapete de veludo, mas foi inesquecível – afirmou o paranaense.

Curiosamente, Mauro guarda em um quadro em seu escritório, emoldurada na parede, a camiseta amarela (o famoso “maillot jaune”) de líder que Indurain usou naquele Tour, autografada.

Camiseta amarela de líder do Tour de France guardada por Mauro e assinada por Miguel Indurain – Arquivo pessoal

Não é a única relíquia que resta daquele 14 de julho de 1991.

Mauro deu a bicicleta da vitória ao amigo Amauri Trevisan, responsável por direcioná-lo para o ciclismo. Em sua casa, guarda a medalha da vitória, uma credencial de competidor e uma camiseta da equipe R.M.O.

Em 2013, naquele mesmo ano em que recebeu a reportagem do “L’Équipe” e que o Tour celebrou cem edições, Mauro recebeu uma medalha comemorativa com o percurso.

Medalha comemorativa das 100 edições do Tour de France – Arquivo pessoal

Foi mais uma prova de como a vitória no dia da Queda da Bastilha, símbolo de opressão da monarquia, eternizou o brasileiro no cenário mais importante de sua modalidade. Um 14 de julho que, mesmo envelhecido 30 anos, tem sabor que se renova anualmente.

– Aquilo foi um sonho sonho realizado. Parece que foi ontem, sabe? Mas vem uma coisa, assim, interessante sempre que penso a respeito. São 30 anos, mas tudo ainda está nítido aqui.

 

 

fonte: globo esporte

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